Pesquisa Datafolha divulgada no início de 2020 apontou que 50% dos brasileiros são católicos. Dentre os ritos da religião os velórios são marcados por rezas de terços, orações, coroas de flores, histórias sobre o ente falecido, além da missa de 7º dia e de um mês. Todos estes gestos são também uma forma de homenagear o falecido e servem para os familiares e amigos tomar consciência da ocorrência da partida do ente querido. Com a pandemia da covid-19, as restrições para evitar o contágio exige que as vítimas da doença sejam levadas do hospital direto ao cemitério, sem a realização do velório, caixão lacrado e apenas com a presença de alguns familiares mais próximos no sepultamento. Os sacerdotes precisaram encontrar uma forma para atender os fiéis neste momento de dor. A Diocese de Caxias do Sul em parceria com especialistas em luto criaram um grupo para dar suporte aos padres no atendimento aos hospitalizados e nos funerais. Tem sido por chamada de áudio que o padre concede a bênção ao doente e por chamada de vídeo participa da cerimônia de encomendação, uma forma de trazer algum conforto para aquele momento de dor. Porém, as pessoas querem a presença de um padre e, em alguns casos, esses pedidos são atendidos, dentro de critérios de segurança, especialmente quando o falecido ou a família possui laços com a comunidade. Seguidamente ficamos sabendo de mais mortes pela doença, como é o caso de uma das coordenadoras das capelinhas, Guilhermina Rech Concer e do músico Giovani Fagundes, que por anos animou a Quermesse de Lourdes. Esta matéria presta uma homenagem a três vítimas da pandemia, que ao longo da vida tiveram relação com a Paróquia de Lourdes. Falamos um pouco de quem eram e de como foi este doloroso momento de despedida para as suas famílias. Não podemos pensar neles como números, embora os números sejam importantes para nos situarmos sobre a situação, mas registrar que farão falta para suas famílias e amigos e também em nossa comunidade.
Conforto vem da fé e da solidariedade
O capelão dos hospitais Pompéia e Saúde, Pe. Claudio Pessoli, passou a realizar a bênção por telefone aos doentes internados no Hospital Pompéia. “É uma situação atípica, precisamos ter flexibilidade no trabalho pastoral, sempre respeitando os protocolos sanitários”, afirma. O sacerdote considera complicado dizer para as pessoas ficarem em casa, quando é nesse momento que elas mais precisam de consolo, mas cita que Jesus também se adaptava às situações e muitas vezes apenas com uma palavra levava sua mensagem de esperança. As solicitações dos familiares são constantes, pois segundo o religioso são eles os mais fragilizados com a situação. O padre, que também contraiu a doença este ano e perdeu a mãe, Maria Leda Pessoli, 97 anos, para a covid-19, afirma que “durante a doença e a perda o que nos conforta é a fé e a solidariedade, esses são os braços que nos abraçam”. Embora circule diariamente pelos corredores do hospital, acredita que tanto ele quanto a mãe contraíram a doença de um familiar que apresentou sintomas leves. Como estava em isolamento quando a mãe faleceu, quem fez a cerimônia de despedida foi o Pe. Eleandro Teles. Ele ressalta que mesmo entre os padres é necessário dar este apoio, pois dois religiosos precisaram de hospitalização e cerca de 20 padres contraíram a doença. Agora recuperado Pe. Claudio segue prestando atendimento hospitalar, celebrando missa na Paróquia do Pio X e realizando celebração de encomendação quando a família solicita. “Ontem mesmo fiz a despedida de uma pessoa de 47 anos, de uma família conhecida minha e muito religiosa, me chamaram e não tem como não sofrer junto com mais esta perda”, conclui.
A dor das famílias das vítimas
Kátia Furtado da Silva teve muitos desafios relacionados à saúde ao longo dos 55 anos de vida. Mesmo assim, sempre foi muito esforçada, trabalhou durante anos na biblioteca da UCS e havia conseguido se aposentar, conta a irmã, Adriana Furtado da Silva Dambros. A família e os amigos convivem desde o último dia 18 de março com a dor da perda de Kátia por complicações da covid-19. Adriana relembra essa dor a partir do dia que ligaram cedo do hospital pedindo para um familiar ir até o local. A irmã foi na esperança de receber uma boa notícia, até de alta, pois Kátia vinha apresentando melhoras. Porém, quando chegou lá a médica informou que ela havia falecido e seria possível apenas vê-la por vídeo. “Foi um choque para mim”. Como não houve velório, Adriana diz que a família precisou encontrar conforto nas orações, nas flores enviadas e nas palavras proferidas pelo Pe. Eleandro Teles no cemitério. “Seguimos em frente porque temos fé, pelo apoio das pessoas e a bonita homenagem prestada na missa de 7o dia na Igreja São Pedro. Estes gestos nos ajudam a amenizar a falta da minha irmã”, afirma Adriana.
Um dos primeiros moradores do bairro Petrópolis, Rivaldo Pastro, 84 anos, foi mais uma vítima da comunidade. A nora, Fabiana de Freitas, conta que o sogro tinha problema cardíaco e que a contaminação pela covid-19 provocou uma insuficiência respiratória que o levou a óbito, no último dia 11 de março. Rivaldo era conhecido no bairro por ter participado ativamente da negociação para a compra do terreno e construção da Igreja São Pedro. Por isso, quando no crematório informaram que seria enviada uma mensagem gravada por um padre para a despedida, a família decidiu entrar em contato com o pároco, Pe. Eleandro Teles. “Foram só 20 minutos, por causa das restrições, mas a presença do padre e as palavras que homenagearam meu sogro foram consoladoras para nossa família”, salienta Fabiana.
A morte da fisioterapeuta Camila Fiorio, 37 anos, no dia 16 de agosto de 2020, deixou toda a categoria da saúde abalada. Ela foi a primeira profissional a perder a vida em Caxias do Sul pela covid-19. A mãe, Laida Fiorio, conta que ela testou positivo e imediatamente se afastou da equipe de 22 pessoas que comandava no Hospital Pompéia, onde trabalhava há 13 anos. Os sintomas eram leves, mas alguns dias depois, ao subir uma escada, passou mal em função de uma trombose na perna que afetou o pulmão e depois disso, teve cinco paradas cardíacas em casa. Foi levada direto para a UTI do Pompéia e faleceu horas depois. Laida conta que como a filha era funcionária do hospital permitiram que os familiares a vissem pela última vez por um vidro. “Não é fácil pensar que não conseguimos nos despedir ou vestir ela pela última vez”, fala com emoção a mãe. O caixão lacrado foi coberto pela bandeira do Grêmio, time que era sua paixão e por uma foto de Camila. A cerimônia ao ar livre no crematório foi conduzida rapidamente pelo Pe. Claudio Pessoli, de quem Camila era amiga e colega. Muitas pessoas acompanharam a despedida de dentro dos carros. Camila participou do grupo de jovens Nova Geração e a família tem laços com a Paróquia de Lourdes. A mãe lembra que a filha sempre tinha um sorriso no rosto e estava disposta a ajudar todo mundo, além de muito religiosa: “você não tem ideia das medalhas e santinhos que a Camila tem”. As demonstrações de carinho ajudam a família a suportar a perda, dentre elas, Laida destaca a homenagem realizada na Catedral Diocesana no Dia do Médico, quando a filha e os demais profissionais da linha de frente foram lembrados em uma missa presidida pelo pároco Pe. Volnei Vanassi.
PARTICIPAÇÃO VIRTUAL
Outra mudança que a pandemia trouxe para a Igreja foi a maior inserção das paróquias e dos padres nas redes sociais. A própria Paróquia de Lourdes passou a transmitir missa diária pelo facebook. Se isso já era uma realidade em alguns locais e tendência na evangelização, a pandemia acelerou muito esse processo. O que percebemos com isso? Além do aumento de seguidores, mais de 7 mil no face da Paróquia de Lourdes, o aumento nas visualizações das missas e de participação pedindo a saúde de um familiar, pelo fim da pandemia e de agradecimento pela recuperação de um doente. Na secretaria paroquial está sendo registrado aumento considerável nas intenções das missas.
Celebrar a vida
A psicóloga e cerimonialista do Grupo L. Formolo, Angelista Granja, responsável pela acolhida e entrevistas com os familiares para elaboração do texto, lido na cerimônia de encomendação no Memorial Crematório, diz que a situação é muito triste e que “não tem como não se envolver e sofrer junto com a dor das pessoas”. Ela afirma que atualmente a pessoa enterra o avô e volta dias depois para enterrar o pai ou um tio. “Temos visto que na mesma família várias pessoas morrem pela doença”. Segundo Angelista, em março foram realizadas no local 163 cerimônias de despedida de vítimas pelo coronavírus, 28 apenas em um dia. A cerimonialista diz que o momento de despedida é para celebrar a vida, por isso tudo é feito com muito cuidado e carinho. “Montamos uma tenda ao ar livre para as cerimônias de despedida das vítimas da pandemia. Enquanto em um telão projetamos fotos escolhidas pelos familiares é lido um texto sobre quem era, do que gostava, o que fazia... produzimos uma bela homenagem a partir das informações colhidas com a família. O objetivo de trazer um pouco mais de conforto”.