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18/03/2017
Valorização é a palavra-chave

Tanto na Igreja, quanto na sociedade, a mulher exerce um papel fundamental, que necessita de reconhecimento

Março, há um século, tem um dia dedicado internacionalmente às mulheres. A data recorda as lutas por melhores condições de trabalho e de vida capitaneadas por mais de 90 mil operárias russas em 1917. Antes disso, em 1911, um incêndio tomou conta de uma indústria têxtil em Nova York e matou 130 trabalhadoras.

Desde lá, milhares de movimentos e levantes populares e femininos tomaram as ruas de todo o mundo, pregando a igualdade entre homens e mulheres e pedindo a equiparação de seus direitos. Seja na sociedade, ou na Igreja, a mulher é uma figura de extrema importância.

O apontamento é quase unânime: as mulheres são sensíveis, ternas, cuidadosas e criativas e são um ponto de equilíbrio na sociedade. No entanto, a maioria das culturas mundiais está apoiada nas bases do patriarcado, que exige a submissão feminina. E ali, mora o grande mote da busca pela igualdade. Não seriam todos, homens e mulheres, constituídos da mesma dignidade diante de Deus?

“O papel da mulher na Igreja não é feminismo, é um direito!”, disse o Papa Francisco em maio de 2016, ao refletir sobre a figura feminina nos processos decisórios da Igreja. O Pontífice também diz que sofre “quando encontra mulheres desempenhando um papel de ‘servidão’ nos ambientes eclesiais.

Desde os primeiros tempos da Igreja, a mulher sempre esteve presente. No Novo Testamento são dezenove as anunciadoras do cristianismo, sendo que a maior parte delas aparece nas cartas de Paulo. Se dedicavam ao serviço e à obra de Cristo. No entanto, com o passar dos séculos e com a política eclesial, a mulher deixou de ter vez e voz na Igreja Católica.

Vaticano II abre as janelas e conferências episcopais dão ânimo

Muitos séculos depois, em 1962, a Igreja sentiu a necessidade de abrir as portas e as janelas para que novos ares retirassem daí o cheiro do “velho”. Com isso, as mulheres começaram a criar, novamente, seus espaços no meio eclesial. No entanto, ainda em 1955, na primeira conferência do episcopado da América Latina e Caribe, realizada no Rio de Janeiro, a temática voltou à discussão.

Depois, outras quatro reuniões do episcopado latino-americano deram um novo rumo ao apostolado feminino, por aqui. Conforme a religiosa scalabriniana, Neli Basso, em Medellin e Puebla, o tema urgia e era debatido. Mas foi em 1992 que a história, de fato, foi mudada. “A conferência de Santo Domingo abre a Igreja para a participação e atuação das mulheres. Se hoje, muitos serviços pastorais, como a própria catequese são capitaneadas por mulheres, é porque em Santo Domingo os bispos tomaram essa decisão e Aparecida, em 2007, reafirmou essa caminhada importantíssima. ”

Irmã Neli, que é coordenadora diocesana da catequese, reflete que o caminho está aberto, mas ainda é necessário o rompimento de alguns tabus. “Precisamos ter a consciência de que o machismo ainda perdura na Igreja. Nós temos mulheres em quase todos os serviços, mas não estão nos processos de decisão. Mas precisamos convir que a mulher também precisa se valorizar e mostrar a sua capacidade, criatividade e, ao mesmo tempo, sua sensibilidade”, aponta.

Quando perguntada sobre a ordem de importância do sacerdócio e da vida religiosa, irmã Neli comenta que ambos têm a sua especificidade. “O padre tem sua ação pastoral voltada aos sacramentos e à vida da Igreja. Já a vida religiosa é uma comunidade que, geralmente é encontrada em lugares com maiores dificuldades. Ou se está com os pobres, ou se perde o carisma religioso”, resume.


Ação que sai da Igreja e vai ao encontro

Irmã Maria do Carmo Gonçalves dos Santos, que também é scalabriniana, comunga do mesmo pensamento. “A mulher católica, hoje, não está somente dentro da Igreja, mas nas diversas fronteiras existenciais. Portanto, a mulher não quer só ajudar na decisão, mas quer construir junto. Ainda falta para a Igreja acolher a perspectiva feminina, o seu jeito e suas características”.

A religiosa, natural de Rio Grande (RS), coordena o Centro de Atendimento ao Migrante de Caxias do Sul, desde 2010. Para ela, tanto no meio eclesial, quanto na sociedade, predomina a desconfiança. “Nós viemos de sistemas patriarcais onde se duvida da capacidade e da inteligência da mulher”, explica lembrando que a figura feminina passa da submissão ao objeto rapidamente. “Tempos atrás, a mulher não podia sair de casa e tinha de ser submissa. Hoje, ela é prostituída, usada, traficada como um objeto”.

No entanto, irmã Maria do Carmo observa com alegria uma das mais curiosas características da Serra gaúcha. “Aqui, a mulher sempre teve um peso muito forte, sempre com a conotação de desbravadora, trabalhadora. Não só na imigração italiana. Hoje, mesmo com os afrodescendentes, podemos dizer que é a mulher que abre caminho para tudo, ela é protagonista de sua história e briga ‘mano-a-mano’ com o esposo no jeito de lutar por melhores condições”, comemora.

A religiosa, que tem 42 anos de idade e há 18 fez sua profissão na congregação, acredita que a solução para os problemas envolvendo as mulheres está na valorização. “A cultura machista não é somente dos homens. A mulher precisa mostrar sua força, valorizar-se a si mesma e às outras mulheres e dialogar muito, sobretudo na Igreja.”


Mulher do lar, da Igreja, do trabalho e da participação

Catequista, ministra da Eucaristia e auxiliar na liturgia, Eliane Rafaelli Pergher atua na Igreja e, mais especificamente, na paróquia de Lourdes há oito anos. Mãe de três filhos, ela acredita que a mulher precisa da fé para lançar as bases sólidas da família. “O que nos mantém é a nossa fé. Se não cremos, não temos base, firmeza”.

Casada há 20 anos, ela trabalha com o marido numa estamparia da família. Perguntada sobre a importância da mulher na sociedade, Eliane acredita que ela sempre teve a sua importância. Percebe, no entanto, que a figura feminina precisa ter atenção especial ao lar. “A importância da mulher sempre existiu. O que se fala agora é o valor. Quem educava e apoiava os filhos era a mulher e ela precisa estar presente na vida da família”, comenta.

Ao falar sobre a importância do gênero feminino nos ambientes eclesiais, ela é enfática. “A mulher tem a percepção do cuidado e é um ser desprendido. Eu estou em casa com meus filhos, mas ao mesmo tempo, sei que tenho uma família muito maior aqui na Igreja, sobretudo na catequese”. Eliane foi incentivada por um de seus filhos para auxiliar a comunidade. “Pediram, ao final de uma missa, quem gostaria de dar catequese. Meu filho me olhou e disse ‘mãe, tu tens capacidade, que tal ajudar’ e eu me ofereci”, lembra.

Oriunda da Renovação Carismática Católica (RCC), Eliane diz que se sente muito bem na Igreja. “Eu gosto de estar perto Dele, de Jesus.” Apesar de perceber a falta de espaço das mulheres nas decisões eclesiais, a catequista avalia a participação feminina em Lourdes como positiva. “Aqui, a mulher ajuda muito e tem muita voz”.